Há mais de uma década que os amantes do belo devem ter percebido que a chamada “capital do norte”: Epoma Yawamphula” (cidade de Nampula) perdeu o seu brilho original.
Como uma mãe de miríades de filhos busca cuidar de cada um segundo as suas habilidades, fraquezas e qualidades, a cidade de Nampula carregou, por muitos anos, alguns títulos que provocavam nos turistas a vontade de visitá-la.
Logo na chegada ao aeroporto, a recepção dos visitantes por mulheres vestidas de capulanas lindas e com “mushiro” (creme tradicional) no rosto, indicava o trajeto que cada um deveria fazer: ir ao interior para comer mandioca fresca ou ao litoral para comer o peixe do Índico.
Em frente da Catedral de Nampula, nos domingos funcionava a feira de produtos artesanais, unindos vários artistas e artesãos que apresentavam a cultura do povo moçambicano.
Vejamos, sem nenhum pessimismo, nem saudosismo, algumas coisas que aos poucos estão a desaparecer.
A cidade que já formou milhares de jovens que contribuiram no país em diferentes áreas, hoje, com o famoso bairro de Namicopo, ser um jovem pode ser um perigo, porque muitos são chamados de terroristas pelo fato de participarem das manifestações, exigindo seus direitos e pedirem que haja justiça social.
A cidade já deu exemplo de uma nova Atenas cuja cidadania era vivida e exercida com maior profundidade. Hoje, porém, os jovens são obrigados a dizer “sim” mesmo sem concordar com o sistema que não entende que a riqueza do multipartidarismo está na liberdade de expressão.
A cidade já presenciou uma das maiores movimentações numa estação de comboio de passageiros e mercadorias. Pois no final da tarde, todos os caminhos levavam ao local (estação de Caminhos de Ferro) para se viver o fenômeno de compra e de venda de produtos agrícolas,
não só. Hoje, no entanto, o custo de vida é cada vez mais elevado e os jovens continuam desempregados.
Cada bairro, antigo ou novo, apresentava uma característica peculiar, com seus mercados típicos, como, “os belenenses”, especialista na venda de papahi e de côco. Hoje, não há incentivos comerciais para que o empreendedorismo contribua no desenvolvimento local.
As músicas típicas da cultura local nas vozes de Zena Bacar, o velho Nimala e rapper Namakoto tornavam cada nampulense orgulhoso de ser do povo Makhuwa. Hoje, preferimos escutar somente músicas em inglês mesmo sem saber a letra. A globalização não impera o abandono da cultura local. Deve haver a diversidade do repertório para o enriquecimento cognitivo. Deve haver a valorização da cultura local porque nenhum norte americano se apaixonaria da língua Emakhuwa sem antes dominar o inglês.
Nas ruas e nos eventos, a saudação “ehali” constituia o cartão postal para os que gostam de idiomas do povo Bantu. Hoje, falar a língua Emakhuwa pode ser visto como um analfabeto.
A grande fábrica têxtil, a famosa “texmoc”, empregava homens e mulheres, impulsionava a produção de algodão em toda região norte de Moçambique.
Hoje, preferimos vestir a roupa de segunda mão, a chamada “roupa calamidade” porque as indústrias faliram.
Enquanto a cidade-mãe oferecia o melhor, nenhum dos filhos lembrou-se dela, não obstante às necessidades que aos poucos foi apresentando.
O encanto, a admiração, o respeito, os valores, a beleza que Nampula carregava, foram aos poucos sumindo e constituindo um desafio a ser encarado.
Será que ainda temos na memória que Nampula sempre foi uma mega cidade, não somente pelas estruturas físicas, mas pelos princípios e valores que povo sempre manteve?
Na celebração do dia da cidade de Nampula, convidamos que seja uma ocasião de refletirmos e buscarmos caminhos para devolvermos à cidade, capital do norte, o seu brilho original.
A cidade precisa de homens e mulheres comprometidos com o bem comum.
A cidade precisa de jovens que sonham numa cidade que pode ser a Dubai de Moçambique.
A cidade precisa de governantes que servem o povo e não que se servem do povo.
A cidade precisa de munícipes que cuidam do seu patrimônio e não de multidões que empurram o tempo sem nenhuma esperança.
A cidade precisa de ordem e tranquilidade para acolher os turistas com segurança e clima de paz.
A cidade precisa de ruas limpas e asfaltadas para facilitar o passeio e a movimentação dos bens.
A cidade precisa de políticas administrativas inclusivas para que todos se sintam parte da urbe.
A cidade precisa de vários projetos de desenvolvimento humano, social e econômico para que não seja um quartel de mendigos e delinquentes abandonados à sua sorte.
A cidade precisa de confiança e fraternidade para que não seja uma “nova cidade de bárbaros” onde o outro é visto como um inimigo.
A cidade precisa de eventos culturais para refrescar a mente dos seus munícipes em cada final do dia ou final de semana.
A cidade precisa de paz para que as crianças saibam que nasceram num lugar certo.
Devolvemos o brilho original da cidade de Nampula para que tenhamos orgulho de ver a capital do norte a prosperar.
“Despertador dos Sonhos”
Pe. Kwiriwi, CP
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