Na pequena vila de Natala, o Governo anunciou, com pompa e circunstância, o início de um grande projecto: “Asfaltagem da Estrada da Esperança”, que ligaria a vila à cidade de Nampula. Prometeram que em poucos meses os carros deixariam de atolarem na lama, os comerciantes poderiam transportar mercadorias sem percalços, e as crianças chegariam à escola sem medo dos buracos.

Chegou o dia da cerimónia de lançamento. O ministro apareceu, fez discursos inflamados, cortou a fita, apertou mãos, tirou fotos para o jornal, tudo perfeito para a televisão. A população aplaudiu, sonhando com o futuro brilhante.

Passaram-se três meses. A estrada? Bem, parecia que tinham asfaltado… só que era um asfalto diferente — cheio de buracos enormes, quase crateras. Diziam os moradores que aquilo mais parecia um queijo suíço do que uma estrada.

Numa tarde, o Zé Manuel, um agricultor local, decidiu ir vender a sua produção na cidade. Levou a carrinha carregada de mandioca, tomates e milho. No meio do caminho, a carrinha caiu num desses buracos gigantes. Zé Manuel saiu, olhou para o buraco, depois para a estrada e murmurou:

— “Ah, pois é… Prometeram-nos asfalto, mas acho que foi mais buraco asfaltado. Agora só falta um ministro para encher esses buracos… com promessas!”

E foi assim que na vila de Natala o povo aprendeu a dizer que, por cá, as promessas são como as estradas: começam bonitas e acabam todas esburacadas.

Moçambique está cansado. Também a sua idade contribui. Já tem 50 anos de independência política. Cansado de discursos bem-ensaiados que prometem pontes enquanto o povo ainda se afoga em charcos. Cansado de ouvir falar de desenvolvimento enquanto continua a caminhar quilómetros por estradas esburacadas, poeirentas e perigosas só para chegar a um hospital sem medicamentos ou a uma escola sem carteira. Há uma distância cruel entre o que se diz nas tribunas do poder e o que se vive nas comunidades. E essa distância mede-se em buracos, em atrasos, em vidas perdidas no caminho.

O país foi asfaltado com promessas, mas não com asfalto verdadeiro. São décadas a ouvir que “é preciso melhorar a mobilidade”, “que o acesso aos serviços básicos é prioridade”, “que o interior será integrado”. Palavras ditas com solenidade, mas que não atravessam o alcatrão da realidade. Porque a realidade é dura: a estrada que liga vilas inteiras está intransitável, sobretudo em tempos chuvosos tudo vira lama ou rios que percorrem toda estrada. A ambulância que devia socorrer uma mulher em trabalho de parto não chega, porque ficou atolada. O jovem que ia prestar exame de admissão perde o horário, porque o chapa avariou num troço há muito esquecido.

É este o retrato de um país onde a governação se tornou especialista em cerimónias e alheia à vida concreta. Governar não pode ser só discursar, tem de ser tocar o chão onde o povo pisa. E neste chão há muito que o povo pisa só com fé, porque o poder não chega lá. E quando chega, traz consigo soluções improvisadas, mal pensadas, como os infames trator-chapa, que são a caricatura do atraso e o insulto à inteligência colectiva.

Enquanto o resto do mundo investe em ferrovias rápidas, corredores de desenvolvimento e infraestruturas digitais, Moçambique continua a tropeçar nos mesmos problemas básicos de há vinte, trinta anos e cinquenta anos. O povo não precisa de novas promessas, precisa que as antigas se cumpram. Porque a estrada que liga o campo ao mercado, a aldeia ao hospital, a escola à cidade, não é apenas betão: é desenvolvimento, é dignidade, é futuro.

É inaceitável que uma mãe perca um filho porque a estrada estava em más condições. É revoltante que um distrito inteiro esteja isolado porque o Estado achou que ali não era “estrategicamente viável” investir. Quem decide isso? Quem mede o valor da vida em função do mapa eleitoral?

O buraco na estrada é também buraco na governação. É ausência de visão, de planificação, de sensibilidade. E quanto mais o tempo passa, mais fundo ele se torna. Moçambique não pode continuar a viver de pacotes de promessas enquanto sangra no atraso. É preciso abrir os olhos e reconhecer que a paciência do povo não é infinita.

Se as promessas fossem asfalto, já teríamos autoestradas a cruzar o país de norte a sul. Mas são apenas palavras e estas não tapam buracos. O que o povo exige agora é simples: que os discursos parem de ser construídos como estradas e que as estradas comecem finalmente a ser construídas como compromissos sérios.

Porque enquanto houver buracos, há também feridas. E um país ferido não avança. E mais não disse!

 

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