Nampula chega aos 69 anos de existência como cidade. Quase sete décadas de história, de crescimento, de conquistas e de desafios. Mas ao olhar com atenção para o que se vive hoje nos bairros, nas ruas e nos rostos das pessoas, sempre nos perguntamos: é esta a cidade dos 69 anos?
Não há dúvidas de que Nampula é uma cidade viva, movimentada, cheia de cor, cultura, comércio e gente com energia. Mas essa vida esconde feridas abertas. Feridas que todos conhecem, mas poucos têm coragem de encarar de frente.
Nampula é uma cidade onde o cheiro a fruta fresca se mistura com o cheiro a lixo acumulado. Onde se vende peixe ao lado de valas a céu aberto. Onde as crianças jogam bola descalças em ruas poeirentas, muitas delas sem saber quando vão regressar à escola.
É uma cidade com jovens cheios de sonhos, mas sem espaços de lazer ou formação prática. Uma cidade onde se trabalha muito para se viver pouco. Onde as mães caminham quilómetros com bacias à cabeça para vender amendoim, banana ou bolinhos tudo para pôr comida na mesa.
As infraestruturas ainda não acompanharam o ritmo do povo. Cresceu a cidade, sim, mas cresceu sem ordem. As casas nasceram antes das ruas. Os bairros surgiram antes da água, da luz, dos centros de saúde. E hoje, temos comunidades inteiras a viver na margem do possível, a improvisar o que devia ser garantido.
Chapas lotados, com horários incertos. As pessoas empurram-se de manhã e à tarde, não por gosto, mas por necessidade. É o que há. E mesmo assim, ninguém desiste.
Na época das chuvas, os bairros alagam. Na época seca, a poeira entra pelas casas, pelos olhos, pelos pulmões. E mesmo assim, a cidade sobrevive. As pessoas aprendem a viver entre buracos, entre filas, entre improvisos.
E no meio de tudo isso, há também beleza. Há a força da mulher namplense. Há o espírito de ajuda entre vizinhos. Há os que limpam a frente das suas casas sem serem mandados. Os que ensinam as crianças a respeitar os mais velhos. Os que, mesmo com pouco, repartem.
Nampula não é só dor. É também resistência. É criatividade. É alegria nos mercados, nas igrejas, nas praças. É capulana, é castanha, é mandioca assada no carvão. É vida simples, mas digna quando é possível.
Por isso, neste aniversário, a cidade não precisa só de parabéns. Precisa de reflexão. Precisa de ser ouvida por quem nela vive. Porque não é normal viver sem saneamento. Não é justo viver com medo da próxima doença. Não é aceitável que tanta gente tenha de inventar soluções todos os dias, só para conseguir viver.
69 anos depois, o que fizemos da cidade? E mais importante: o que vamos fazer agora?
Nampula tem tudo para ser melhor. Tem gente que trabalha. Tem juventude que aprende. Tem cultura, comércio, tradição. Mas falta cuidar. Falta planear. Falta valorizar o que é de todos. Porque a cidade não são os prédios. A cidade é o povo.
E o povo de Nampula, esse sim, merece uma cidade à altura da sua luta.
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